O Mundo em 2030

Como será o mundo em 2030? A Cátedra UNESCO “Património Material e Saber Fazer Tradicional” divulga inquérito com pesquisa mundial em desenvolvimento

A UNESCO convida a todos para ajudar a definir a direção do mundo na próxima década, a partir de pesquisa global sem precedentes sobre os desafios que estamos enfrentando e as soluções necessárias para garantir que o mundo em 2030 seja aquele em que queremos viver!

Os resultados da pesquisa ajudarão a UNESCO a definir uma agenda global baseada nessas temáticas ao longo da próxima década para garantir que estejamos respondendo às questões com as quais você se importa.

Acesse aqui o inquérito, leva pouco mais de 5 minutos para seu preenchimento.

A pesquisa é anônima e todos os dados coletados serão armazenados de forma segura e anônima, de acordo com a política de privacidade de dados da UNESCO.

O Mediterrâneo não é apenas europeu


Pensar o Mediterrâneo requer uma visão alargada da sua complexidade, o que não é possível fazer ao separá-lo em dois como têm feito as políticas europeias, que há muito deixaram de lado a ideia de cooperação com os países do Norte da África.

Em entrevista ao Sul Informação, Filipe Themudo Barata fala da divisão artificial do Mediterrâneo imposta pela Europa, a importância da cooperação com os países do Norte da África, a Fundação Oriente-Ocidente e a relação de Portugal com os refugiados.

Assista!

Filipe Themudo Barata fala das relações de Portugal com o Mediterrâneo no programa Encontros com o Património

Anunciação. Álvaro Pires de Évora ( 1430-1434 ). Têmpera e ouro sobre madeira 30,5 x 22 cm . Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

O Museu Nacional de Arte Antiga promove, até 15 de Março, a maior exposição de sempre sobre Álvaro Pires de Évora, “Álvaro Pirez d’Évora — Um pintor português em Itália nas vésperas do Renascimento”, com 85 obras do artista, nascido no Alentejo nos finais do Século XIV. Filipe Themudo Barata, coordenador da Cátedra UNESCO em Património Imaterial, esteve no programa Encontros com o Património da rádio TSF, no âmbito de edição dedicada à esta exposição.

No programa participaram também Maria João Vilhena, conservadora do Museu Nacional de Arte Antiga, e Joaquim Caetano, director daquele museu.

“Álvaro Pires de Évora, ou Álvaro Pires de Portugal como também era conhecido em Itália, é um pintor referido na principal obra historiográfica do renascimento sobre arte: Le vite de’ piu eccellenti pittori, scultori, et architettori, de Giorgio Vasari”, diz Joaquim Caetano. O director do Museu Nacional de Arte Antiga, e comissário da exposição, conta que documentos encontrados mais tarde referem uma grande quantidade de obras assinadas por Álvaro Pires de Évora em Latin e Italiano (Álvaro Piero de Portugallo), mas especificam também uma obra numa grande tábua com a virgem menina e anjos, que foi encontrada na Igreja de Santa Croce de Fossabanda, próximo de Pisa, onde ele assina em Português: Álvaro Pires de Évora Pinto.

“É essa sequência de assinaturas da obra do Álvaro Pires, com os pouquíssimos documentos conhecidos só referentes à empreitada dos frescos do Palácio Datini em Prato, em 1410, que nos dão uma biografia que é em muito construída a partir das obras que puderam ser identificadas”, explica Joaquim Caetano.

Durante o programa, Filipe Themudo Barata falou sobre a presença portuguesa no Mediterrâneo, a atmosfera económica e cultural de Portugal no Século XV, e as relações de Portugal com Itália e a Europa, contextualizando assim a atmosfera histórica da qual faz parte a obra de Álvaro Pires de Évora.

Para o coordenador da Cátedra UNESCO em Património Imaterial, se no Século XV era dada uma maior importância à expressão económica do Mediterrâneo do que à sua expressão cultural, tal é verdade ainda hoje. Relembra, no entanto, que as relações eclesiásticas também tinham uma grande expressão na época e que terá sido provavelmente por esta via que Álvaro Pires chegou às cidades italianas.

O podcast com a conversa completa no programa Encontros com o Património sobre José Pires de Évora pode ser ouvido aqui.

A Cátedra e o património. O que fazemos com o Património Cultural Imaterial?

por Filipe Themudo Barata

O Património Cultural Imaterial (PCI) é o tema central do trabalho da Cátedra UNESCO. E este património é composto por práticas, formas de ver o mundo e saberes fazer, realidades frágeis com dificuldades em sobreviver na nossa sociedade em permanente mudança. Apesar de isto parecer evidente, é raro que nos documentos de apresentação das nossas actividades sublinhem essa ligação entre o que fazemos e o património que ocupa tanto do nosso tempo.

No final do título da Cátedra, encontra-se uma expressão que tem todo o sentido: “ligando o património” (linking heritage) e é essa que devemos valorizar. O património construído, para ser bem compreendido, tem, na sua base, valores, conhecimentos e formas que nos permitem, de facto, percebê-lo; do mesmo modo, o património natural e as paisagens só são compreendidas quando estudamos as práticas sociais que lhes deram a estrutura que hoje têm. Se quisermos, a compreensão dos outros patrimónios procuramo-la, quase sempre, na sua própria imaterialidade.

Claro que esta situação torna o trabalho mais difícil de descrever e precisar, mas é este esforço que não devemos esquecer.

O problema agrava-se com a generalização da mobilidade no mundo actual: dentro de cada país, dos campos e dos pequenos núcleos urbanos para os grandes centros populacionais, entre países e continentes à procura de empregos e melhores condições de vida e, infelizmente muito comum nos nossos dias, para fugir à prisão e à guerra. Esta mobilidade, voluntária ou não, traz para os destinos finais desses movimentos populacionais efeitos directamente relacionados com o PCI e que importa estudar, dar a conhecer e participar na abertura de soluções.

Nos locais em que são recebidos, sempre percebidos como um encargo, a primeira perda é a da auto-estima, já que, na grande cidade, se perde importância individual e colectiva e não se valoriza o saber fazer de cada um. Depois percebe-se a dificuldade de integração, muitas vezes porque o recém-chegado tem dificuldades em compreender a sociedade a que chegou e, quase sempre, porque quem acolher não tem, porque não sabe ou não quer, políticas de integração e de valorização do saber de quem chega.

Acresce que nas actuais sociedades de massas, a pressão para a uniformização, para a prevalência das línguas e das culturas dominantes, cria ou ajuda a criar fenómenos de guetização e marginalidade no mundo urbano, que se tornam cada vez maiores (os guetos e as cidades). É nesta difícil linha de fronteira que vive a nossa Cátedra UNESCO. Claro que é um trabalho duro; na cidade, a representação política dos grupos faz-se pelo somatório dos votos de cada indivíduo, pelo que se perde a ideia de pertença ao grupo base. Por outro lado, essa mesma cidade, também é o lugar privilegiado da inovação e da criatividade.

Este documento nasce do processo de avaliação da Cátedra UNESCO e das observações que nos foram feitas. Absorvidos no nosso trabalho regular, percebemos muito bem a ligação do que fazemos com o PCI. Reconhecemos que, ao lidar com os problemas das colecções museológicas e dos próprios museus, estamos no meio da discussão sobre o enquadramento institucional do património imaterial; outras vezes, tratando com problemas de desenvolvimento urbano, defendemos e discutimos, ora o significado dos sítios, ora as formas mais razoáveis de organizar políticas de integração urbana. Quando nos viramos para o turismo no quadro do património, estamos tantas vezes à procura de caminhos para, através da utilização do PCI como um recurso que é, o poder preservar e valorizar. Nós sabemos isso, mas nem sempre isso é perceptível para todos os que acompanham o nosso trabalho, incluindo técnicos da UNESCO. É muito importante sublinhar a coerência do trabalho que fazemos; entre membros da equipa e colaboradores já somos cerca de 30 pessoas; é fácil dispersarmo-nos e ajudarmos a criar uma sensação de caos que não existe. Mas a Cátedra é um local de encontro. Por isso, aqui fica uma recomendação “constitucional”: em todas as actividades que organizamos ou produzimos, devemos incluir uma explicação, curta ou longa, sobre a sua ligação ao Património Cultural Imaterial.