A Cátedra UNESCO em Património Cultural Imaterial da Universidade de Évora congratula-se com a publicação do artigo ICH does not have to be nostalgic: heroic viticulture, SDGs and the drafting of the ‘Madeira Wine Traditions’ application as an enactment of virtuous bureaucracy, na revista International Journal of Heritage Studies.
Da autoria de A. J. M. da Silva, N. N. Nunes e R. A. N. dos Santos, os dois primeiros membros da Cátedra UNESCO, o estudo analisa o processo de preparação da candidatura “Tradições do Vinho da Madeira” à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, propondo uma reflexão inovadora sobre o papel que os processos de candidatura podem desempenhar na valorização das comunidades e dos seus saberes.
O artigo questiona as narrativas nostálgicas que tradicionalmente associam o vinho da Madeira ao consumo das elites e à idealização da paisagem, deixando em segundo plano a realidade social e laboral da sua produção. Partindo de 72 entrevistas realizadas aos diferentes intervenientes da cadeia de valor, os autores defendem que a viticultura heroica deve ser entendida não como um património “musealizado”, mas como uma infraestrutura verde e social fundamental para a resiliência do território.
O estudo introduz o conceito de “burocracia virtuosa”, propondo que o próprio processo de candidatura à UNESCO pode funcionar como um agente de transformação. Longe de resultar de um desenho institucional deliberado, essa virtude emerge da interação entre os diferentes requisitos da candidatura, cuja lógica processual cria novas formas de diálogo, reorganização e reconhecimento.
A análise demonstra ainda que estes mecanismos burocráticos permitem traduzir as preocupações quotidianas dos viticultores para a linguagem normativa do Património Cultural Imaterial e do desenvolvimento sustentável, num processo que os autores designam por “agulhagem semântica” (semantic switching). Este processo contribui para tornar visíveis formas de trabalho, conhecimento e gestão ambiental frequentemente invisibilizadas ou desvalorizadas, reequilibrando relações de poder e promovendo uma nova leitura do património.
Ao revelar aquilo que os autores designam como o “icebergue económico” da produção vitícola — trazendo à superfície o trabalho invisível e a gestão ambiental não remunerada que sustentam a paisagem da Madeira —, o artigo demonstra que os processos de candidatura ao Património Cultural Imaterial podem ultrapassar representações nostálgicas do passado e constituir instrumentos de transformação social, reforçando a agência das comunidades e contribuindo para a construção de futuros mais sustentáveis para sistemas patrimoniais assentes em trabalho intensivo.
Referência
da Silva, A. J. M., Nunes, N. N., & dos Santos, R. A. N. (2026). ICH does not have to be nostalgic: heroic viticulture, SDGs and the drafting of the ‘Madeira Wine Traditions’ application as an enactment of virtuous bureaucracy. International Journal of Heritage Studies, 1–23. https://doi.org/10.1080/13527258.2026.2703480
Fotografia de destaque: Vinhas da Madeira. © Juan Teixeira / Justino’s Madeira Wines (2024).



